estou de partida, meu amor.
não... não, não chores agora. as sereias chamam-me e as ondas acariciam a costa, à minha procura. voltam, voltam tantas e tantas vezes mais, sem desistir de mim... cada onda redobra a esperança que acaba por se desfazer quando beija a costa. estão cansadas, as ondas... preciso de lhes recompensar por toda esta espera infinitamente exaustiva. chegou a hora de ir ao seu encontro.
pára, deixa-me, deixa-me as mãos... não... não podes fazer isto. não podes lembrar-te que vou fazer falta, agora que me vou.
sabes? estive muito tempo por cá. os ponteiros do relógio passaram demasiadas vezes por mim, já me conheciam, até. a cama ganhou os jeitos do meu corpo, a tua almofada ganhou o meu cheiro e deixei o verniz vermelho na mesa de cabeceira, como lembrança dos dias em que o sol nos acordava e aquecia as faces, todas aquelas doces manhãs de inverno. lembras-te do verniz? esse que me ofereceste, sim, depois de partires o outro, deixando uma poça de sangue no chão do quarto. vermelho, vermelho-desejo, vermelho-amor. vermelho nós, talvez.
não... não posso ficar. não pelo amor no chão, não pelos recados na cozinha perto do jantar arrefecido, não pela televisão desligada depois de adormecer.
estamos sós, amor. perdemos-nos na imensidade do oceano de compassos de tempo que nos tirava o folgo. e tu... tu afogaste-te. estás aqui, todo tu estás aqui, o teu perfume, as tuas grandes mãos, a tua anca larga, mas não és tu. falta o brilho que deixavas no escuro que nos devorava as noites sem dormir, como se de uma estrela te tratasses, como se quisesses iluminar o meu caminho até casa, até ao teu abraço ansioso. talvez tenhas sido enganado pelo canto das sereias, foi isso, amor?
no entanto, repito, não fico. não por ti. e muito menos por mim.
não somos mais fortes que isto... não somos mais fortes que que os olhos cansados, o coração farto. as roupas estão gastas, assim como as mãos, demasiadamente enlaçadas. essas, agora dormentes, precisam de descanso. um merecido descanso.
não somos mais fortes que isto... não somos mais fortes que que os olhos cansados, o coração farto. as roupas estão gastas, assim como as mãos, demasiadamente enlaçadas. essas, agora dormentes, precisam de descanso. um merecido descanso.
talvez seja isso o que as nossas almas precisem, também. uma bonança depois de uma tempestade, depois de todo o caos que somos tu e eu. porque, por mais que sejamos fogo, não nos podemos deixar reduzir a cinzas.
temos que ser fortes... somos mais que isto. e, por isso, temos que lutar para sermos mais. melhores.
estou de partida portanto, meu amor... eu volto. prometo que volto. mas sem datas e horários, por favor. o regresso fica prometido. o barco parte agora, acompanho-o de braços abertos.
a união dos nossos lábios perpetua numa pausa, indeterminadamente eterna.
um dia ainda nos encontraremos na costa, entre a espuma que as ondas deixam depois de a beijarem, meu amor.
prometo.
um dia ainda nos encontraremos na costa, entre a espuma que as ondas deixam depois de a beijarem, meu amor.
prometo.