2013-01-28


estou de partida, meu amor.
não... não, não chores agora. as sereias chamam-me e as ondas acariciam a costa, à minha procura. voltam, voltam tantas e tantas vezes mais, sem desistir de mim... cada onda redobra a esperança que acaba por se desfazer quando beija a costa. estão cansadas, as ondas... preciso de lhes recompensar por toda esta espera infinitamente exaustiva. chegou a hora de ir ao seu encontro.
pára, deixa-me, deixa-me as mãos... não... não podes fazer isto. não podes lembrar-te que vou fazer falta, agora que me vou.
sabes? estive muito tempo por cá. os ponteiros do relógio passaram demasiadas vezes por mim, já me conheciam, até. a cama ganhou os jeitos do meu corpo, a tua almofada ganhou o meu cheiro e deixei o verniz vermelho na mesa de cabeceira, como lembrança dos dias em que o sol nos acordava e aquecia as faces, todas aquelas doces manhãs de inverno. lembras-te do verniz? esse que me ofereceste, sim, depois de partires o outro, deixando uma poça de sangue no chão do quarto. vermelho, vermelho-desejo, vermelho-amor. vermelho nós, talvez.
não... não posso ficar. não pelo amor no chão, não pelos recados na cozinha perto do jantar arrefecido, não pela televisão desligada depois de adormecer.
estamos sós, amor. perdemos-nos na imensidade do oceano de compassos de tempo que nos tirava o folgo. e tu... tu afogaste-te. estás aqui, todo tu estás aqui, o teu perfume, as tuas grandes mãos, a tua anca larga, mas não és tu. falta o brilho que deixavas no escuro que nos devorava as noites sem dormir, como se de uma estrela te tratasses, como se quisesses iluminar o meu caminho até casa, até ao teu abraço ansioso. talvez tenhas sido enganado pelo canto das sereias, foi isso, amor?
no entanto, repito, não fico. não por ti. e muito menos por mim.
não somos mais fortes que isto... não somos mais fortes que que os olhos cansados, o coração farto. as roupas estão gastas, assim como as mãos, demasiadamente enlaçadas. essas, agora dormentes, precisam de descanso. um merecido descanso.
talvez seja isso o que as nossas almas precisem, também. uma bonança depois de uma tempestade, depois de todo o caos que somos tu e eu. porque, por mais que sejamos fogo, não nos podemos deixar reduzir a cinzas.
temos que ser fortes... somos mais que isto. e, por isso, temos que lutar para sermos mais. melhores.
estou de partida portanto, meu amor... eu volto. prometo que volto. mas sem datas e horários, por favor. o regresso fica prometido. o barco parte agora, acompanho-o de braços abertos.
a união dos nossos lábios perpetua numa pausa, indeterminadamente eterna.
um dia ainda nos encontraremos na costa, entre a espuma que as ondas deixam depois de a beijarem, meu amor.
prometo.




ainda me lembro da primeira música que cantei em dois mil e sete. engraçado ver que, desse ano, pouco ou nada mais me lembro de minimamente relevante.
acabou... boa sorte...
 


cantar acalma o espírito. tranquiliza. como a dança, faz-nos voar. faz-nos esquecer o aqui, o agora, quem nos rodeia e quem não quer saber.
cantamos. espantamos os males, como diz o velho português. sentimos as letras melódicas, os compassos de espera, os ritmos.
cantar...
cantar sem medo é dos maiores prazeres da vida.


o mais triste é saberes que a única coisa que partilhas com certas pessoas são memórias de um passado carinhosamente morto e o oxigênio que nos lembra que, por mais separados que estejamos, estamos vivos. continuamos vivos. sozinhos, mas vivos. a sobreviver perante a dor da ausência... mas a respirar. 

... esquecemos-nos muitas vezes desse pequeno pormenor. o amor não mata.
pode moer, mas não mata.
antes assim fosse...
 

2013-01-26



andar sem rumo. sem relógio no pulso, sem tremores ansiosos no lado esquerdo do peito, sem pressões de chegar a um destino inexistente.
andar, simplesmente andar. andar para cansar os membros, já que já não há força para fazer correr o rio de lágrimas que nasce dos olhos.
andar... sem voltar. sem sequer olhar para trás.
andar no escuro sem ser necessário nos sentirmos, sem mãos desesperadas a descobrirem os corpos que estagnaram no tempo em esperas inúteis, sem as bocas e os sentidos sentirem o sal das memórias que correm pelo rosto, sem os olhos verem e, muitos menos, repararem, no vazio em que insistimos dançar sem música a acompanhar-nos.
o desespero em forma de passos ressoa no piso de madeira que não tarda em cair, de tão degradado que está. o chumbo que cobre o soalho pesa. destrói. as estações passam. e, mesmo assim, o chão teima em não cair.
no entanto, mesmo assim, continua tão degradado... tão suplicante por um fim merecido à agonia constante que insiste em ficar, por não saber partir.
o chão está tão degradado como a vida que passa por ele, mundana, banal... triste. tão triste como nós.
tanto que temos em comum com o chão que pisamos e não nos deixa cair no fundo da sobrevivência em que vivemos, meu amor.

2013-01-20




Hoje escrevo para ti, meu amor, numa visão de olhos fechados. Hoje sou cego e cego vejo o nosso amor. Hoje não vejo nada a não seres tu, e nada quero ver para além de ti. Estou sentado, algures, criando-te numa imagem minha e tua, só para te poder contemplar. E hoje, nas minhas mãos, és um pedaço de arte. Amo-te. Não é o amor também uma arte? Hoje escrevo o teu sono mais profundo, só para poder acordar a teu lado. Hoje escrevo canções que me cantas de madrugada nesse teu tom doce e inocente, só para não conseguir deixar de ouvir a tua voz em mim. Hoje escrevo o teu sorriso, para que não voltes a perder a paz que tanto te prometi. Hoje escrevo para ti porque as palavras que te escrevo são o bocado melhor do que eu sou, sem desejos obscuros de não ser. Hoje escrevo sem que exista o tempo, para poder ficar contigo para sempre. E hoje escrevo, de facto, porque te amo. Não é só o facto de te amar motivo suficiente para escrever?




de Jorge Bogalheiro.
a escrita deste miúdo de dezassete anos tem qualquer coisa de muito especial.





confesso que, pelo menos uma vez por mês, permitia-me revisitar as pedras da calçada, à procura da nossa paz. buscava-a, com medo que pudesse estar a vaguear pelo nosso utópico amor, que pudesse estar perdida, sozinha, abandonada. assim como o amor ficou. assim como ficámos nós.
o engraçado é que nunca a encontrei...
parece que ela morreu no momento em que as nossas mãos se desenlaçaram para darem lugar ao rancor de uns punhos fechados em raiva, para darem lugar a um amor que partiu e, ao mesmo tempo, ainda permaneceu demasiado por cá, por estas paredes que suspiravam noites de verão, beijos a saber a vermelho, batimentos cardíacos e respirações em sintonia.
as memórias tornam-se difusas, com o passar das estações.
quem me dera que já nem existissem, sequer.




não existe assim tanto mal no facto de uma pessoa ser directa. desbocada. no facto de não saber estar calada. no facto de, quando acha piada a alguém, ter coragem ou simplesmente inconsciência suficiente para assumir as coisas frontalmente. no facto de se ser introvertida por não se admitir conversa de circunstância mas não se ser tímida.
no entanto, o pior face a isto acontece quando aparece alguém que torna tudo meio difuso e que deixa uma sensação de impotência sobre o que devemos ou não fazer. porque, o usual, acaba por não parecer a opção certa a tomar. por não parecer o suficiente, sequer. por se sentir que é preciso mais. dar mais. ser mais. porque, a essa pessoa, não queremos dar o nosso mero normal estado de ser. queremos o melhor. queremos ser melhores. e o mal é que muitas vezes nem sabemos como mostrar isso mesmo.
tudo isto se resume ao momento em que te apercebes que te podes estar a apaixonar mas que não consegues fazer nada além de pensar simplesmente 'mas que merda onde me vim meter?'
e a realidade é essa. sente-se e não tem travão de mão para não nos deixar colidir de frente com um coração futuramente um pouco mais destruído que antes. mas, pelo menos, um pouco mais vivido que anteriormente, também.




dizem que tudo a seu tempo tem o seu valor...
e se o tempo é pouco? se não chegar? e se o tempo, as formalidades e as regras servirem apenas de obstáculos e espaço vazio que não foi desnecessariamente preenchido? e que tal pensarmos num 'porque não?' em vês de um mero 'porquê?'?
valor e tempo são duas dimensões paralelas que nunca se tocam, nunca se sentem, mas era impossível existirem sem estarem perto uma da outra. pode haver valor sem tempo. tanto valor, tanta importância, entrega. pode haver tempo sem sequer dar importância ao que quer que seja, também. como o tempo, as sensações que lhe são atribuídas também são psicológicas.
a urgência de amar... está tão além dos dos relógios que param sem ter corda e coração suficiente para voltar a andar. a urgência de amar... que tem tanto valor que dói.
a urgência que tarda a chegar ou então chegou cedo demais para ser vivida...

2013-01-19



sexo é escolha / amor é sorte
(...)
amor é novela / sexo é cinema
(...)
amor é prosa / sexo é poesia
(...)
amor nos torna patéticos / sexo é uma selva de epiléticos
(...)
amor é bossa nova / sexo é carnaval
(...)
amor sem sexo é amizade / sexo sem amor é vontade
(...)
sexo vem dos outros e vai embora / amor vem de nós e demora

Rita Lee


livre do passado... e, acima de tudo, livre no presente.


sabes que, infelizmente, atravessaste os limites da tua indiferença quando passas a evitar certos lugares, certas melodias, certos caminhos, por estes te lembrarem pessoas que preferes deixar ao esquecimento.

isto é de 21 de Maio de 2012.

2013-01-18



o Amor, o Amor... simplesmente não dá para falar de Amor. fala-se de rancor, fala-se de nostalgia, fala-se de sentimentalismo e dramatismo trágico. fala-se de saudades de ver, de estar, de tocar, de amar. fala-se de olhares em sintonia, de juventude sônica que ama demasiado para a idade que tem e perde-se demasiado cedo num sentimento que, quando estraga, não volta para curar. fala-se das feridas deixadas, das cicatrizes que, mesmo com o tempo, doem ao toque. fala-se nas reconstruções de corações em pedaços e de beijos trocados por mãos enlaçadas à chuva. mas de Amor... não, nunca se fala de Amor. fala-se nas consequências que são deixadas nas almas que se tornam demasiado frágeis à sua passagem. mas de Amor... não há tempo para falar dele quando nos aquece o lado esquerdo do peito numa noite fria de inverno.


Cracked eggs, dead birds
Scream as they fight for life
I can feel death, can see it's beady eyes
All these things into position
All this things we'll one day swallow whole
And fade out again and fade out again

Imerse your soul in love
Imerse your soul in love!


Radiohead


o vício da humanidade é a esperança...

in Paralelos

2013-01-17



o problema de gostar de alguém não é o sentimento em si. é não haver auto-controlo, não saber como o parar nem saber onde ele vai parar.



e depois existes tu, que balanças entre a Beleza e a Irrealidade. tu, que danças entre a Beleza do ser, por seres tão estranhamente natural em tudo o que és, em tudo o que mostras, e a Irrealidade da tua própria existência, por ser tão estranhamente anormal isso acontecer nos dias de hoje.
e o pior, o mais triste disto tudo, é que não reconheces no espelho o quão belo és. vês as imperfeições que nem te são fieis, apenas olhas aos defeitos que pouco existem face a tudo o resto que tão magnificamente te compõe. 
aos meus olhos és assim. tão... tão qualquer coisa que dá vontade de chorar. tão qualquer coisa que faz todos os outros estagnarem à tua passagem, congelarem com a doce melodia da tua gargalhada, encolherem-se com o mistério que deixas quando partes, aproveitarem o brilho que deixas quando estás.
mas não o reconheces, não consegues reconhecer a realidade que está muito além do espelho, dos reflexos das poças de água dos dias de chuva que, mesmo assim, não conseguem apagar a tua luz tão calorosa, tão inquietante. 
dou-te os meus olhos para conseguires ver quem és de uma vez por todas. para passares a reparar, como eu reparo, em vez de simplesmente olhares para o que te é mostrado.
dava-te os meus olhos para veres de uma vez por todas o quão belo és, porra. para largares o que te torna humano, para honrares as capacidades que tens para seres muito mais que isso. para largares o que te prende ao chão e voares sem precisares de asas.
tens capacidades de mudar o Mundo, tens... tens, em ti, o suficiente para mudar o meu Mundo, pelo menos.
ignora o que vês. repara no que sentes e, aí, vais mergulhar na realidade do teu próprio ser, dentro da irrealidade que é ser alguém como tu. ser, simplesmente, tu mesmo.
por vezes penso avistar-te na longe no céu escuro, perto das estrelas...



tenho um namorado imaginário. chama-se Jorge, porque sempre achei o nome Jorge bonito, tão bonito, embora não conheça ninguém com esse nome, tem descendência indiana, porque os indianos costumam gostar de mim (tive provas disso quando estive em Barcelona e em Londres), já viajou pelo Mundo e tem o coração em Bangkok. tem olhos bonitos, cabelo escuro, é alto mas está sempre sentado porque razões que não vão ser enunciadas porque podem ferir susceptibilidades.
esta brincadeira jorgiana já dura há uns oito meses. damos-nos muito bem.
será ele um heterónimo?

2013-01-14



e depois existem aquelas pessoas que decidem aparecer na tua vida depois de um longo período fora, aqueles amigos como das histórias tristes dos pais que saem para ir comprar tabaco e nunca mais voltam, aquelas relações que não são quentes nem frias mas também não são indiferentes.
dói mais a ausência daqueles que queríamos ao nosso lado ou a presença após um espaço de tempo tão vazio de sentimento, vazio de explicações, vazio de tudo?
dizem que as pessoas partem sempre que têm oportunidade de o fazer. penso que a mesma história se repete ao voltar. depende de nós permitir quem queremos que volte à nossa vida. dói deixar certas pessoas de fora... mas a dor será ainda maior ao deixar certas pessoas entrar.
há sempre um mas. mas, nesta questão, não vale a pena pensar nesse pequeno pormenor. não vale a pena o lado esquerdo do peito doer por quem partiu por não saber ficar.