2014-05-05

Perdeste-me no momento em que a humilhação de me tornares garantidamente como para sempre tua igualou a insistente insatisfação de permanecer eternamente num futuro a teu lado. A vida tem que ser mais que isto...

2013-11-02

tenho medo de ter perdido o dom palavra. que, com o tempo, a fluência dos meus dedos se tenha perdido com o tempo e tudo o resto que com ele foi.
por tanto, tanto tempo, escrever serviu-me para expressar os pequenos demônios que vivem em mim, ou pelo menos dar-lhes a oportunidade de passarem para o papel tudo o que queriam dizer. hoje, desci. os pequenos bichinhos, as vozes continuam a atormentar as minhas noites, enquanto o sono não chega e o corpo está demasiado cansado para adormecer, por a mente se sentir tão ansiosa.
sinto-me nervosa a toda a hora. o tempo não chega, as horas do meu dia não chegam para uma rotina inquebrável que tende a nunca ser o suficiente para aguentar tudo o que é necessário.
o relógio corre. casa, transportes, trabalho, escola. uma escola onde não me estou a encontrar, onde me perco nas aulas, nas práticas, nas pessoas com quem convivo e que, de longe, não conheço. as pessoas em Londres são, de facto, muito frias. a indiferença perante um olhar em lágrimas, cansada a alma que sobrevive.
sentirmos-nos sem nada, dói. a indiferença fere como facas, a solidão vivida numa das maiores cidades do Mundo, é incontrolável. a necessidade calada de um abraço, de um beijo, as mãos frias, o auto-controlo fechado de uns olhos que simplesmente não se podem abrir...
estou mais magra. não sinto fome, sinto sede de uma fonte de carinho que não tenho. não existe. aqui, não existe.
dói-me a cabeça de pensar. de organizar constantemente horários, listas na minha cabeça, as compras para o frigorífico, as horas contadas para colocar a roupa a lavar, para apanhar o autocarro, para não comer porque senão chego atrasada ao meu destino... tremo. de frio, de medo de não conseguir suportar tudo, da impotência de não fazer nada além de sobreviver neste frio que me congela os sentidos, sem querer pedir ajuda.
não quero. sou demasiado egoísta, demasiado orgulhosa, demasiado independente para pedir um abraço.
amar à distância não é fácil. controlar as lágrimas a toda a hora não é fácil. nunca estar sozinha, mas nunca me sentir tão sozinha, não é fácil. chorar... não é fácil. contar o dinheiro, contar as horas, contar as aulas, contar os livros e as contas, não é fácil. perder uma infância que nos aquece o coração, não é fácil. não puder beijar a minha irmã, a minha mãe, o meu pai, a minha avó, a minha tia, todos os dias, não é fácil... não beber café em sorrisos todas as sextas-feiras, não é fácil. ter uma rotina imóvel e inquebrável, sem se puder sair dela, não é fácil.
não me sinto bem. nunca me senti tão sozinha, tão sufocada em palavras que não consigo escrever, tão afogada numa vida que sinto que não me pertence, num futuro que sinto que não me vai trazer nada, num presente com o qual não me identifico. estou cansada. perco o auto-controlo que antes que me caracterizava tão bem, demasiado facilmente. estou cansada de ser forte, de crescer, de ter passado a modo sobrevivência, numa questão de meses.
sinto que não tenho tempo para ser eu, para os meus, para a minha vida. não tenho tempo para mim nem para viver na rotina que me tem acompanhado nos últimos dois meses.
nunca digam que ir viver para fora é fácil. nunca.